Estou perdendo o controle dos meus atos... À medida que minha vida vai se tornando mais difícil e viver dentro de mim vai ficando insuportável, os subterfúgios que criei e a realidade alternativa que produzi com aquelas fantasias mais surreais, vai tomando conta de mim e me transformando em alguém que conscientemente eu não quero ser. Por mais que eu me afaste de tudo isto e me esquive com rispidez e ironia de todos os jogos, acabo caindo nas armadilhas que eu mesma tinha armado e encontrando refugio no mesmo sol de que eu me protegia. É uma multidão de pulsações, contrações, tensões... qualquer coisa é violência contra meus sentidos e desperta um lado meu que não reconheço, me força a me arriscar, a jogar o jogo. Esses pequenos choques sob a pele que sobem em ondas pelos meus braços e chegam fortes ao meu pescoço, culminando num tremor e num suspiro, estão baseados em coisa alguma! É difícil acreditar que eu cometo o mesmo erro tantas vezes. É estranho olhar pra tudo isso como se eu visse de fora de mim. Não consigo aceitar que eu posso acabar com tudo sozinha, de um tiro só... só que não quero. Quanto mais eu fujo mais eu chego perto. Quanto mais eu conquisto maior é a minha gana de ir além das fronteiras... nem o passado e nem os arrependimentos conseguem gritar mais alto do que essa irracionalidade crescendo em mim. Eu quero controlar o que eu penso e me concentrar no meu futuro, em algo melhor. Mas eu fico presa aqui, neste presente de mau gosto, obcecada por algo que eu nem sei como é de verdade e que não demora muito será substituído por alguma coisa ainda mais louca. Eu sei apenas que superestimei a minha força e levianamente subestimei meu poder de sedução.
Quando criança eu brincava com velas junto com alguns amigos numa casa abandonada... eu ficava fascinada com a chama e gostava de ter a parafina escorrendo pelos meus dedos porque ela me aquecia e por muito pouco não queimava. Eu ficava ali no escuro, apenas com aquelas chamas, sentada numa poltrona velha e às vezes via os ratos passando pelas vigas do telhado. Mas eu não saía do lugar, porque o calor e a beleza do fogo dançando me hipnotizava, me atraía. É assim que eu me sinto agora, mas brincar com parafina é muito perigoso, as vezes queima.